camila mossi

Escritora, pesquisadora e educadora.

“Pois é, poderíamos chamar esses textos de oásis, reflexões, frestas – mas chamamos de crônicas, e através deles um pouco de intimidade é oferecido ao universo. Recebam, portanto, esse material criativo e emocional com um amplo sorriso: podemos não saber direito o nome disso, mas é disso que estamos precisando.”

Martha Medeiros

Presentes do presente

Rubens Penz

Qual o melhor presente: aquele que esperamos ou o que nos surpreende? O primeiro pode ser a promessa de alguém que nos ama ou mesmo ser um investimento particular e antigo, como a viagem dos sonhos. Já a surpresa, para assim ser, deverá chegar para nós quando menos contamos, seja porque está além de nossas pretensões, seja pela crença de que ainda não é o momento. Agora, um presente maravilhoso não tem a chance perfeita de combinar os dois modos? A resposta é sim, e este livro serve como fiel exemplo.

“Outros presentes”, como sugere o título, é uma antologia com as marcas do nosso tempo, tão afeito aos textos crônicos. Segunda Safra da pandemia — a última, se Deus quiser —, é composta por uma turma de botequim formada sem que jamais estivesse à mesa do bar. Porém, autorizada pela natureza dos laços construídos na Santa Sede a utilizar as telas do computador para confissões, graças, implicâncias, solidariedade, informação, drama, brindes e muito mais. Uma turma forjada no afeto.

A vida está complicada? Nesse caso, nada mais conveniente do que o primeiro capítulo ter os ataques de riso como tema e o último versar sobre a alegria. No meio, as aventuras e as desventuras no trabalho, o tempo, os amigos, as nossas ruas, a música, as nossas profissões e até a insônia compondo o cardápio ideal para passar a limpo nossa alterada rotina. Buscar nas diversas estratégias estudadas com base nos textos de bons mestres as palavras certas para servirem, se não de consolo, ao menos de apoio para ultrapassar este período inédito.

Como a sorte ajuda os bons, nove pessoas incríveis se engajaram no projeto, cada uma depositando um tanto do seu talento e uma porção de sua generosidade. Camila, praticamente Luis Fernando Verissimo de saias; Regina, lucidez e firmeza transpostas em palavras; Viviane e seu texto engajado sem perder a ternura (e o humor, claro); Greta, cujos sotaque e graça são um Rio de Janeiro em crônicas; Marcel — o único menino! —, proporcionando viagens para nossa imaginação; Noara, ofertando desde o olhar enigmático até as ideias sólidas; Eugênia e seu contagiante entusiasmo quando não está pessimista (realista, dirá ela me corrigindo); Fernanda com sua inigualável habilidade em retratar de modo simples as tantas complexidades; e Patrícia, nossa tábua de salvação quando o baralho dos sentimentos se mistura e, ainda assim, precisamos vencer o jogo.

Por isso tudo, o livro que agora chega em suas mãos é a feliz combinação de um presente esperado e surpreendente (para mim, para todos). Oitenta e uma crônicas que merecemos ler, cada uma capaz de fazer cair nosso queixo. Chega em boa hora, nos estertores deste triste momento. Faz aquilo que os livros de crônicas oferecem por sua natureza: promete encantar e transformar nosso presente em outros presentes.

Martha Medeiros

Madrinha da Safra 2021 de Porto Alegre

Rubem Braga certa vez disse que os escritores fazem livros que são verdadeiras casas, e nelas ficam, mas o cronista é como o cigano que toda noite arma a sua tenda e, pela manhã, a desmancha e se vai. A imagem ilustra com perfeição este gênero literário coloquial e transitório, em que o texto está sempre de passagem. A crônica é uma conversa fiada que pode começar numa sala de espera ou num ponto de ônibus, mas que nasceu nos botecos, onde o ambiente gaiato e o burburinho como trilha sonora inspiram a oralidade das melhores histórias, aquelas que merecem ficar registradas — até que um novo dia amanheça e outras histórias sejam contadas.

Santa Sede é um “acampamento” editorial, onde tanta gente talentosa armou sua tenda. É uma enorme mesa de bar, onde outros tantos puxaram uma cadeira. É o templo dos flagrantes compartilhados. Uma viagem de Uber que teve sua rota alterada, a angústia de falar em público, o amor nascendo entre ataques de riso: bons cronistas colocam sua lupa diante do que é microscópico e extraem preciosidades. Neste livro você encontrará vários desses catadores de epifanias, todos com a alma a postos e com muita graça escorrendo pela ponta dos dedos. Humor, ironia, nostalgia, denúncía, poesia, confissão, cabe tudo na crônica. O secreto torna-se universal, o sussurro grita, as miudezas se agigantam. Tão rápida e curta, é desembrulhada diante de nossos olhos e seus poucos parágrafos revelam um mundo. Que tipo de literatura é essa que se apresenta como um mosaico, que agrega tantos analistas do cotidiano, que funda um estilo próprio a cada vez que é publicada?

O cronista português Manuel Pina certa vez declarou, ao ser intimado a definir sua produção: “Chamo-lhe crônicas porque não sei o nome disso”. Pois é, poderíamos chamar esses textos de oásis, reflexões, frestas — mas chamamos de crônicas, e através deles um pouco de intimidade é oferecido ao universo. Recebam, portanto, esse material criativo e emocional com um amplo sorriso: podemos não saber direito o nome disso, mas é disso que estamos precisando.

Outros presentes

Autores: Rubem Penz (Org.), Camila Mossi, Regina Lydia, Viviane Chaves Intini, Greta Cardia E. M. Guimarães, Marcel Souza, Noara Lisboa, Eugênia Câmara, Fernanda Cunha Quadros, Patrícia Ana Neumann
Organização: Rubem Penz
Santa Sede Editorial
Editora: ‎ Santa Sede
Ano: ‎2021
240 páginas
ISBN xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx


Compre online ↗

Compre autografado com a escritora ↗

Outros presentes por aí