camila mossi

Escritora, pesquisadora e educadora.

📷 Imagem: Fear of falling – Tullac

🎧 Para ler ouvindo

É alto. Está escuro, mas não o suficiente para não ver o chão daqui da sacada. Eu só preciso me pendurar para fora e balançar o tronco para as minhas pernas alcançarem o parapeito da sacada do apartamento de baixo. A gravidade faz o resto. Suspiro fundo, passo uma perna, agora a outra. Equilibro os pés trêmulos na grade. Uma gota de suor se joga em direção ao meu olho, enxugo. Já é difícil sem isso. Olho para baixo para calcular o ângulo, no fim das contas, geometria serve para alguma coisa. Mas no meio, as contas são complicadas. A brisa no pescoço. A altura. A tremedeira. O arrepio. O nó na garganta. Os dedos se abrindo. As pupilas dilatando. A queda.

O impacto. O chão de lençóis úmidos do pesadelo recorrente da infância. O despertador marca 06:58. Triste isso de acordar dois minutos antes do horário. No espelho, as olheiras indicam que foi mais o susto da queda do que falta de sono que me antecipou. Quase não dormia quando passava a noite com a mãe no hospital e o sono acumulado se tornava pesado e lúgubre em casa. A mãe dizia que quando a gente sonhava com queda, assim, é porque estava crescendo. Acho que não cresço mais já tem um tempo. Já faz uns três dias que ela não fala. Só fala quando alucina. Pelo menos são coisas bonitas, ela fala de praças com crianças brincando, rindo, correndo.

Faz tempo que não brinco, ou rio, mas estou sempre correndo. Agora mesmo, preciso engolir qualquer coisa, preparar a mochila para a noite fria no hospital, correr para o trabalho. Quatro horas atendendo pessoas e respondendo “estou bem e você?”. Na hora do almoço, também vou lá. Depois de um tempo, é estranho. Você chega e ela está dormindo, você fica lá e se despede e beija e cheira e segura o choro todo dia. Mas mãe é mãe. E você continua indo e se despedindo e beijando e cheirando e segurando o choro. E é tão difícil, seu pulmão esmagado pelo choro contido e seus olhos ardendo como se fossem sair da órbita. E você deseja que tudo acabe, mas daí cai em si. Minhas sobrancelhas cerradas de culpa emolduram meu rosto enquanto vou beijá-la em despedida.

Não quero voltar para o trabalho. Mais quatro horas. Meus olhos quase verdes e quase vazios não mentem, mas a história de mãe moribunda perde o impacto para as pessoas quando o tempo de UTI se prolonga, depois vai para os cuidados paliativos. Todo mundo já desejou melhoras, já fez oração, já deu sorriso amarelo e tapinha no ombro. Mas é preciso equilíbrio, continuar andando, ainda que os pés vacilem. O médico aparece na porta, sinal de que a visita está acabando. Uma gota tenta se lançar do meu olho, suspiro fundo para segurar. Já é difícil sem isso. Sempre com olhar de pena, o médico. Fala de novo as medicações intravenosas e as porcentagens de chance de melhora. Contas complicadas.

O movimento da tarde está fraco. As contas complicadas saltam na minha mente para alimentar a esperança de melhora. A brisa no pescoço indica que o sol já vai e é hora de voltar para o hospital. Altas expectativas, nessa altura, se resumem em “quem sabe hoje ela fala”, “talvez ainda me reconheça”. Constato com as mãos trêmulas que nada mudou. Dormindo, com uma expressão tranquila e seu cheiro de mãe. Suas mãos entre as minhas, como todos os dias. De repente, frias. A tremedeira. O arrepio. O nó na garganta. Os dedos se abrindo. As pupilas dilatando. A queda livre.
O impacto. O pior pesadelo de infância. Nunca mais chão.

📖 Publicado em: A vida aqui não é fácil (Metamorfose, 2021), vários autores.

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