camila mossi

Escritora, pesquisadora e educadora.

Meu nome é Camila Mossi

Escritora Camila Mossi em foto escolar escrevendo em frente à bandeira do Brasil.

📷 Imagem: acervo pessoal

🎧 Para ler ouvindo

Eu sou escritora. Quando eu nasci, eu já era escritora, mas me embrulharam em um cobertor rosa e se preocuparam que eu fosse bonita e dócil. Inteligente, mas nunca convencida. Na pequena infância, antes de aprender a escrever, quando inventava histórias brincando sozinha na pré-escola, eu era escritora. Já era escritora com menos de uma década de vida, quando sofri abusos, machismo e opressão. Eu já era escritora e escrevia em código no meu diário para não me suicidar.

Eu já era escritora no ensino médio, quando sofria bullying por ser gorda. Peso que eu carreguei pela opressão misógina desde a infância. E por ser sapatão, mesmo sem ter uma vida sexual ativa, eu era punida por não ser feminina o bastante. Eu já era escritora quando a diretora da escola disse para a minha mãe que eu era líder de gangue porque eu passei a me recusar a baixar a cabeça para injustiças.

Eu já era escritora quando entrei na faculdade de Letras e tinha vergonha de mostrar minhas crônicas para os colegas. Quando mostrei meu primeiro texto publicado em uma antologia para um cara escritor, ele disse apenas: “tem erro de português, né?” – faltava um acerto circunflexo em um “têm” no plural, mas eu já era escritora. Era escritora quando um professor, também autor, disse para eu desistir disso de publicar livro porque ia ficar que nem ele, com um monte de exemplares juntando poeira em casa.

Eu já era escritora quando me apaixonei por crônicas, um gênero tipicamente masculino. Era escritora quando meu pai dizia: “não desista, isso vai servir para alguma coisa, um dia!”. E já era escritora quando me assumi lésbica e me recusei a escrever literatura de nicho. Quando recebi o primeiro não de uma editora, eu já era escritora, mas demorei dez anos para tentar de novo. Só tentei por insistência da minha mãe, que estava com câncer terminal. O “sim” da editora saiu duas semanas depois de ela falecer.

O Agora sapiens foi publicado e eu me tornei oficialmente escritora. Quando me casei com uma mulher, assumindo perante toda a sociedade a minha identidade de mulher lésbica casada, eu já era escritora e mostrei para as outras jovens lésbicas que elas também podem ser. Ano passado, O silêncio é sempre externo foi publicado pela lei Aldir Blanc e O Anticonstitucionalissimamente ganhou o primeiro lugar na categoria crônicas no prêmio Outras Palavras da Secretaria de Educação do PR, reafirmando esse selo: “sou escritora, mãe, pena que você não está aqui para ver”.

Mesmo assim, você não me conhece. Não estou nos jornais. Meus livros não estão nas vitrines das livrarias, ninguém me convida para palestras remuneradas ou para integrar o acervo de uma grande editora. Mas eu existo e resisto. Sou Camila Mossi, mulher, jovem, lésbica, esquerdista e escritora premiada. Sou inquebrável.

📑 Primeira publicação: Facebook

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