camila mossi

Escritora, pesquisadora e educadora.

Prosa poética

Livro pop-up casal

📷 Imagem: banco de imagens / autoria desconhecida.

🎧 Para ler ouvindo

Eu não gosto de poesia. E não é sobre a poesia, ela provavelmente é boa. É sobre mim: eu não gosto porque tenho pressa e quero chegar lá no âmago da questão logo. Quero o desfecho tão brevemente quanto possível. Quero a discussão. Não tenho tempo para a rima ecoando na cabeça. Um soneto cotidiano é um trava-língua para um cérbero ansioso. Para a declamação, então, nem se fala. O pesadelo que é um sarau para uma apressada que pula degraus de dois em dois. Dá para morrer três vezes em cada pausa dramática e eu estou empenhada em evitar a morte, sabe como é?

Eu estou cronicamente viva, você poeticamente viva. Barulho e ritmo. Cacofonia e rima. Épico e comédia. Opostos que se atraem tanto que talvez meu próximo livro se chame Crônicas de poesia desconstruída. Ou não. Eu não gosto de poesia. Mas tudo bem porque você também não gosta de crônica, “só das suas”, me disse. Não sei. Talvez uma ou outra lírica, acho. Não é culpa delas. Poesia e crônica à mercê das nossas vaidades. A ironia e a espontaneidade te assustam e te atraem. A singeleza e a melancolia nostálgica me paralisam e enternecem. Nosso sarau particular bagunça nossa órbita.

Eu não gosto de poesia, mas nunca digo isso em voz alta. Nem em caixa alta, então, trate com carinho essa confissão. Não gosto como a poesia, versos com os quais você já está acostumada a dançar e me manda despretensiosamente, chegam sutis e logo desnudam e inebriam e encantam e chacoalham a minha pobre alma que não sabe girar. Nunca aprendi. No meio do meu caminho havia uma pedra, alguns pedregulhos e várias pedrinhas nas quais escorreguei e fui metade do caminho de bunda – palavra que não frequenta suas estrofes, nem mesmo seus versos livres, que são livres, porém polidos.

Nossas narrativas não frequentam o mesmo volume. Talvez nem a mesma coleção, entende? Folheie-se um tanto, leia suas notas de rodapé. Na sua jornada épica, você venceu a condição de camponesa e construiu o seu final feliz, encadernado em capa dura e exposto na estante. Mulher. Mulherão. Nas minhas folhas soltas em um intransigente papel jornal que voa ao relento, me vê menina. Não há como discutir que nossa proximidade é certamente um erro de catalogação. Eu não gosto de poesia. Mas quando gosto, me lembra você. Quando um verso pastoril me traz o sussurro do vento dizendo que só para ouvi-lo vale a pena ter nascido, penso em você.
Quando a máquina floresce incondicionalmente, sonho com orgias literárias:
— Me deixa abrir o teu cordel?
— Não, temos que evitar a tragédia.
— Mas você marcou minha página.
— E eu quero ler você de orelha a orelha, mas não devo.
— Haicai em tentação.
— Não posso.

Entenda, o romance não cabe no poema e amores líquidos borram as letras e deixam a crônica com má impressão. Melhor encerrar aqui essa prosa poética, com aquela lembrança rimada de você dizendo “me ensina a não andar com os pés no chão”, mas a crônica, querida, é texto rasteiro, é a vida ao rés-do-chão.

Gostou da leitura? Compartilhe!

© 2026 Creative Commons CC BY-NC-ND 4.0 - Você pode compartilhar os textos livremente, desde que cite a autoria, não altere o conteúdo e não os utilize para fins comerciais.