camila mossi

Escritora, pesquisadora e educadora.

🎧 Para ler ouvindo

Quem me conhece sabe que eu adoro filmes e séries de zumbi. Quem não me conhece, bem, saiba, eu pareço boa pessoa, mas, por dentro, gosto mesmo é de ver as pessoas sendo devoradas por humanos feralizados, enquanto as tripas e o sangue voam na tela. Gosto tanto que já assisti, inclusive, os filmes brasileiros de zumbi.

Dado esse gosto peculiar, fiquei bastante animada quando vi que a Netflix lançou uma série zumbinesca. Black summer é o nome do bebê de Rosemary da empresa de streaming. Stephen King, o mestre do terror, disse que a série é assustadora. Fui conferir e, novamente indignada com o senhor dos contos trevosos – a outra indignação foi quando ele disse o mesmo do filme A bruxa (The witch, 2015) – resolvi me aventurar nesse novo gênero: as cronirresenhas ou resenhônicas. Espero que a maledicência comum ao gênero recém criado te ajude a, sei lá, canalizar a raiva. Boa viagem. Pode conter spoilers.

Black summer é o típico terror: depende quase que unicamente da burrice dos protagonistas para se desenvolver. Ele apresenta a história de um casal – burro – que está indo com, com a filha adolescente, para a evacuação da cidade, liderada pelo exército. Como o marido já foi parcialmente mastigado por zumbis, ou seja, está contaminado, eles são proibidos de embarcar e se perdem da filha, que é levada para o ponto de concentração, um estádio. Começa, então, a jornada de Rose (Jaime King), a esposa quase jantada pelo marido, em busca da filha.

Em seu trajeto, Rose vai encontrando outros sobreviventes. Cada episódio se desenvolve contando a história de um dos personagens e chegando ao seu ponto de convergência, o que poderia ser muito enriquecedor para a narrativa, mas, como parece que a Netflix deixou os estagiários sozinhos no estúdio, essa estrutura, feita de forma muito amadora, causou diversos erros de continuidade e uma narrativa despropositadamente fragmentada.

Lance (Kelsey Flower), por exemplo, que já é recessivo por natureza, quase bateu as botas porque, com sua mão misteriosamente machucada, não consegue dar partida em um carro para fugir dos zumbis maratonistas. Na cena seguinte, após correr como se não houvesse amanhã, o ruivinho se refugia em um mercado e, voi lá, sua mão está intacta. Ele usa a mão para agarrar as latas de comida, triunfante, provavelmente pensando: meu nome é ruivinho e eu sou a universal!

Quanto ao elenco, a diversidade racial aquece o coração, mas, é usada para o protagonismo de uma personagem branca. A composição de personagens é ousada e segue o padrão Netflix. Parece fruto de exercício de criatividade, os estagiários e seu baseado em um brainstorm: “- E se a gente colocasse uma coreana que não fala inglês? – Boa!”. “- Sabe o que seria legal, também? Um personagem surdo! – Arrasou, viado!”.

Curiosamente, os melhores diálogos da série são entre a Kyungsun (Christine Lee), que fica gritando em coreano – sem legendas – com seu acompanhante de apocalipse, William (Sal Velez Jr). Peculiar, também, é o fato de Ryan (Mustafa Alabssi), o sobrevivente surdo, virar um zumbi ouvinte. Eu ouvi um amém?

Quanto à estética da série, vi diversos elogios, mas não me emocionei. O episódio 3 “Escola de verão” (Summer school) – creio que o motivador dos elogios de King – tem, realmente, um clima de terror muito bem desenvolvido. No entanto, a reorganização social meio macabra parece incoerente com o tempo da narrativa: o governo ainda existe, saneamento básico também, a epidemia parece estar no começo. Além disso, a inovação passa longe: o visual é todo Tim Burton e a premissa pode ser inspirada em A colheita maldita (Children of corn), conto famoso, adaptado para uma série de sete filmes entre os anos 80 e 90 e dois remakes em 2009 e 2011, de autoria de quem? Dele mesmo, do nosso querido Stephen King! It, que coisa!

A produção de Black summer alega ter se inspirado em outra série, Z nation, contudo, essa inspiração parece bastante livre. Z nation, mesmo com seus ares de baixo orçamento, desenvolve muito bem o humor nonsense a que se propõe, com um ritmo de narrativa bem mais atrativo que Black summer. Porém, há outras influências mais evidentes: temos zumbis rápidos e consideravelmente inteligentes como em Guerra mundial Z (World war Z, 2013). Todos que morrem viram zumbis, como em Terra dos mortos (Land of the dead, 2005). Os zumbis são tomados de fúria descomunal, como em O extermínio (23 days after, 1998). Há momentos de enfoque de câmera em primeira pessoa, como em REC (2007), que agrada os fãs de jogos em primeira pessoa, mas me irrita profundamente. A epidemia e a narrativa são bem genéricos, podendo se encaixar facilmente como spin-off de qualquer produto do universo zumbi. Mais do mesmo, resumidamente. Com poucas tripas voando, aliás.

📑 Primeira publicação: Update or Die (2020).

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